Por que ela foi embora

(uma parada no futebol para publicar um texto que há tempos devo a alguns queridos amigos)

Ela não é a mulher perfeita só porque transforma parte dela nos homens com os quais se relaciona, passando a gostar do esporte que ele gosta e a pedir os ovos preparados do modo como ele aprecia, mas porque o coloca no lugar que todos, no fundo, gostaríamos de ocupar na vida de alguém: o centro. Com ela ao lado, esse cara, sem graça no meio da multidão, se sente especial. Ela adora as histórias dele e chora de rir com suas piadas. Vê os defeitos do moço como “charme” e sua falta de trejeitos sociais como “autenticidade” – ela até o acha bonito! E ele, coitado, quase acredita que realmente merece tê-la ao seu lado.

Assim, cego pela ilusão de que a mulher dos sonhos pode ser real, ele mergulha na relação com a mesma precipitação de uma criança frente um sorvete derretendo. Substitui o clichê do macho alfa pelo do apaixonado babão e inicia o processo de aprisionamento da amada com regalias e submissão sufocantes. Se ela tiver tudo, não irá embora, certo? Errado. Ao contrário dos homens, as mulheres sabem dizer adeus.

Mas exatamente como a traída que finge não saber das escapulidas do marido, o homem apaixonado e feliz prefere manter-se cego às inquietações da amada. Afinal, validá-las seria reconhecer que, talvez, ele não seja o homem da vida da mulher da sua vida, não é mesmo?

Crente na ilusão de que as mulheres se realizam no casamento, o pobre ajoelha-se, jura amor eterno e dá entrada no apartamento. Acha que assim ela fica. E fica mesmo, por um tempo. Porque mesmo um conto de fadas mentiroso ainda é melhor do que a solidão. “E ele me trata tão bem…” pondera ao som do ronco irritante do amante que virou colega.

Só que no fundo eles sabem – sim, os dois – que o dia do “até que a morte os separe” vai chegar e que, quando isso acontecer, quando a ficha cair, ela vai correr, fugir como uma louca para bem longe daquela prisão que ela mesma ajudou a construir, com seu medo diário de mostrar-se imperfeita.

E ele ficará lá, chorando no bar com os amigos, sem entender o que fez de errado, pensando na toalha molhada na cama, no futebol de terça, na sogra, naquele dia naquela festa… “terá sido isso?” Enquanto ela, sozinha, sem casa e ideia do que fazer a seguir, respira, aliviada, o ar da liberdade. “Ele merece alguém que o ame de verdade. Um dia seremos amigos”, reflete, com frieza, para aliviar o protocolar sentimento de culpa.

Se o príncipe abandonado compreendesse que, mergulhado na fantasia reconfortante de que aquele amor seria eterno, ele nunca se deu ao trabalho de observá-la mais de perto, perceberia que a “mulher da sua vida”, na verdade, jamais se mostrou inteira, completa, com todas as suas complexidades e defeitos. Quem sabe ao fazer isso, ao se dar conta de que nunca realmente a teve, ele, por fim, entenda por que ela foi embora.

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