“Sai do quarto, vai ver gente”

“Por que você não trabalha com cinema?”. Meu pai me fez essa pergunta, quando eu tinha 16 anos. Com o vestibular dobrando a esquina, conversas sobre o futuro frequentemente dominavam jantares em família. Eu nunca tinha pensado em trabalhar com cinema. Eu amava filmes e séries num nível “Paula, por favor, chega de TV, vá fazer amigos”, mas jamais considerei fazer parte, profissionalmente, deste universo que era para mim fantasia e não realidade. E se eu começasse a trabalhar com cinema e de repente os filmes perdessem a graça? Para onde então eu escaparia quando a vida real se mostrasse chata, comum, previsível?

Na minha adolescência eu morava em frente a uma locadora de vídeos. Em frente. Minha mãe, já fluente na demanda “sai do quarto, vai ver gente”, certamente não colocou esse fator na equação ao escolher o apartamento. Ou, vai saber?, previu o fatídico destino das locadoras e deixou estar. Eram uns dois filmes por dia, uns quatro nos finais de semana. Certa vez compartilhei uma ideia genial que havia tido: ser contratada por uma videolocadora quando ficasse mais velha. Era a solução perfeita para trabalhar com algo que eu amava, mas sem correr o risco de me decepcionar com a indústria. Seria brilhante se não fosse uma burrice. Por sorte, minha visionária mãe se opôs à ideia meio segundo após ouvi-la, daquele jeito que mães costumam se opor, em uma única frase com efeito silenciador imediato. Alguns anos mais tarde, como bem sabemos, as locadoras foram extintas e eu, obviamente desprovida do gene visionário, virei jornalista.

Acelera dez – tá bom, quinze – anos no futuro. A locadora veio para dentro de casa. No meu caso, chama-se Netflix (mas pode ser Amazon, HBO Go, Now…). Eu pago quase nada por mês e tenho acesso a milhares de filmes e séries, para assistir quando quiser. Sem contar Popcorn Time, Stremio, etc. E ainda sem ninguém gritando do corredor “sai do quarto, Paula, vai ver gente”. Era o paraíso. Era.

Não é que deixei de amar filmes e séries, quer dizer, eu ainda preciso estar na sessão de estreia de “Capitão América: Guerra Civil”, com aquele monte de adolescentes gritando nerdices, e demoro menos de 20 horas para terminar uma temporada de “House of Cards”. O mergulho no escapismo que a ficção proporciona ainda é extremamente importante dentro desta cabecinha que lhes escreve. O problema é que a facilidade e rapidez do processo minou a excitação da espera. E – eu não sabia disso – eu gostava da espera.

Era gostoso esperar o filme chegar nas locadoras, ler sobre as estreias (que não eram tantas), reservar um momento do dia para ver aquele filme, aquela série. Hoje, quando estou em casa, à noite, em frente à TV, com um infinito de filmes para assistir, me pego pensando “o que eu poderia fazer agora?”. A mágica luz azul deixou de ser a escolha óbvia. Eu inseri esse universo tão profundamente na minha rotina que ele passou a ser, assim como a vida real em alguns momentos, chato, comum e previsível. Não tem o que fazer? Liga o Netflix. Quer relaxar? Liga o Netflix. Coração partido? Amigos compromissados? Marido viajando? Sem sono? Liga o Netflix. Não tem nada que eu realmente queira ver. O filme – aquela coisa linda, mágica, especial – virou mera distração.

Corta para o meu momento revelação. Há alguns meses, enquanto estendia minha hora de almoço vendo uma segunda série (às vezes como em casa e cronometro minha “hora de almoço” a partir de um episódio de uma série, que tem no geral 45 minutos), eu comecei a pensar em quantas pessoas estavam ganhando uma grana enquanto eu estava ali, no sofá. Porque para construir aqueles 45 minutos de entretenimento muita gente trabalhou, da ideia do roteiro ao texto do resumo do filme na tela da TV. O meu nada financia uma indústria inteira. O meu não trabalhar, não namorar, não sair, não produzir, enfim, não fazer nada, alimenta um bocado de bocas. Só não alimenta a minha. Sim, sim, alimenta minha alma, meu espírito, minha mente, claro, e é por isso que amo tanto o cinema. Mas, em termos práticos, o que eu tenho é uma oferta cada vez maior de filmes que eu não quero ver, apresentados com uma rapidez desproporcional ao tempo que eu tenho para vê-los. Sim, pode ser que tudo isso, todo esse texto, seja simples fruto da dor que eu sinto nas costas quando passo tempo demais vendo TV. Mas a verdade é que, ultimamente, eu estou preferindo sair do quarto para ver gente.

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Sofrer por prazer

Que mania é essa de torcer para a zebra, hein? Sem o nosso favorito em campo, não pensamos duas vezes ao acolher o “coitadinho” como razão de nossos gritos e expectativas. Se há um “candidato ao título”, então, aí é que torcemos com gosto para o azarão!

Um estudo americano, de 1991, colocou o seguinte cenário para mais de 100 universitários: dois times, A e B, se enfrentariam em uma competição envolvendo sete jogos de um esporte não identificado, sendo o time A o favorito. Resultado: 81% dos estudantes escolheram torcer para o time B. Então pediu-se que os universitários imaginassem que o time B de alguma forma conseguiu vencer os primeiros três jogos. O que aconteceu? Metade dos que decidiram torcer para o time B mudaram de ideia, passando a apoiar o time A.

A explicação científica para o famoso “gostar de sofrer” é a seguinte: o torcedor, considerado um hedonista pelos pesquisadores, sempre quer sentir o máximo de prazer possível. Assim, com o time do coração fora da jogada, escolherá torcer para a opção que mais provavelmente lhe garantirá fortes emoções e até, quem sabe, o êxtase da superação. Por isso, entre uma partida acirrada e um jogo dominado por um favorito (um que de fato honre a fama), o torcedor opta por apoiar a zebra. Se ela perder, tanto faz, “não é meu time mesmo”. Mas, se ela vencer… haja coração!

Hedonismo recompensado

No jogo de hoje entre o Internacional, do Brasil, e o Mazembe, da República Democrática do Congo, a zebra levou a melhor – e com dois golaços. O time brasileiro, favoritíssimo a chegar na final do Mundial de Clubes, nem sequer balançou a rede do divertido goleiro Kidiaba. Agora é esperar a partida entre a italiana Inter de Milão e o desconhecido – porém empolgado – Seongnam, da Coreia do Sul. Preciso dizer quem é a zebra desde jogo?

Conto

Bia mata Justino. Justino fica triste. “Morrer eu até morro, mas ir para o céu, ninguém merece!” Queria mesmo é ir para o inferno. Lá, poderia se vingar da esposa que o assassinou. Pelo menos isso ele achava… Mas como Deus escreve certo por linhas tortas, Justino chegou no éden e descobriu que a vingança é melhor no paraíso do que no inferno. É que no céu ele fica feliz – como nunca se sentiu com a mulher, diga-se de passagem – enquanto a esposa, na terra, tem que lidar com o amante bebum que só sabe pedir dinheiro. O problema foi quando Justino, agora com um bocado de tempo livre, resolveu dar uma espiada na mulher lá de cima. Como foi péssima essa ideia! Ele viu o terceiro depois dele jogando pelada com o pessoal do bairro e… não é que o fulano fazia mais gols? Justino não se aguentou. Marcou audiência com Deus e foi direto ao ponto: “Traído e assassinado por aquelazinha eu até suporto, mas colocar um atacante melhor do que eu para jogar no time, pô, aí é sacanagem!” Então Justino foi para o inferno. Mas não gostou. Lá é que tinham atacantes bem melhores do que ele.