Mau perdedor?

Tem quem tire sarro do lema “Corinthians não vive de título, vive de Corinthians”, defendendo que isso é papo de mau perdedor. Se fosse isso, a nação corintiana, hoje, estaria morta. E não está. Os 30 milhões de torcedores desse time que virou república acordaram normalmente na segunda-feira pós final do Brasileirão. Tomaram café, escovaram os dentes, foram trabalhar. Sim, sem o título e com um gosto azedo na paladar – mas vivos. Porque corintiano não precisa ver o time ganhando para gritar “timão”, não precisa estar na série A para lotar estádio, não precisa de taças para se sentir o maior. Mais do que isso, “Corinthians vive de Corinthians” deixa claro que a massa alvinegra ainda torce, chora e vibra por seu time – e não contra os outros. Coisa cada vez mais rara no futebol, o Corinthians ainda basta para fazer pulsar o coração de quem é louco por ele.

Dizer que não se vive de títulos não é negar a alegria de conquistá-los. Lógico que os corintianos queriam o penta no domingo (ou algum terá a cara de pau de dizer que não?)! A questão aqui é: o quanto significa perder para aqueles que já consideram a vida uma vitória?

Incentivo

Logo após o empate com o Goiás, que levou o Corinthians à terceira posição no Brasileirão (Cruzeiro venceu o Palmeiras, em Minas, por 2 x 1, ficando com o segundo lugar) e, consequentemente, à ter que disputar a pré-libertadores, o time lançou uma nova camiseta, com os dizeres: “Muitos vivem de títulos. Nós vivemos do Corinthians”.

…ou esperteza?

O ano do centenário foi um fiasco. Por pior que tenha sido o desempenho de Palmeiras e São Paulo neste Brasileirão, nada se compara à junção de todas as derrotas do Corinthians no ano que deveria ter sido o da conquista da Libertadores! Com razão, o time virou o principal alvo de piadas no futebol paulista (nacional?). Assim, é muito inteligente da equipe de marketing do clube apelar para a paixão dos “loucos por ti Corinthians” para desviar atenção de toda a grana investida em uma campanha – a do centenário – que se provou falida. Afinal, quem torce para time que não vive de títulos não se dá o trabalho de cobrar equipe e dirigentes por vitórias, né?

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Chega de sofrimento

No dia seguinte à festa do centenário corintiano, em setembro, um colega que muito admiro comparou o torcedor alvinegro com um religioso: pois tanto um fiel quanto o outro parece interpretar a desgraça como um sinal divino de que é preciso aumentar a adoração, revigorar e fé e continuar acreditando em uma virada. “Os cem anos do Corinthians se passaram sob o signo do sofrimento. Quanto mais dor, mais amor!” escreveu Valdomiro Neto em sua coluna no Diário LANCE! do dia 1 de setembro.

Quer saber de uma coisa? Estou um pouco cansada dessa carapuça de sofredor tão pateticamente enaltecida pelos corintianos. Mais dor, mais amor o caramba! O futebol, como a vida, já é uma experiência carregada de emoções fortes, com lances inesperados e desfechos surpreendentes. Não há quem ganhe tudo e nem quem perca sempre. E isto basta para tornar o jogo interessante. Mais sofrimento para quê?

Vai entender…

Em novembro, na “final antecipada” entre os dois primeiros da tabela do Brasileirão (na época), o Corinthians venceu o Fluminense por 2 x 1, no Engenhão, e só não virou líder por causa do saldo de gols entre os dois times. No último domingo (10), Fluminense e Cruzeiro, os dois primeiros da tabela hoje, disputaram outra “final antecipada” (o clube mineiro levou a melhor). E o Corinthians? Pois é… deve estar testando o amor e a devoção de seus fiéis.