Maior que isso tudo

Poucas coisas nesse mundo são tão perigosas quanto uma pessoa insegura. O cara mais gente boa do escritório decide que não tem mais tempo para ajudar os outros, o irmão legal vira expert em apontar os defeitos da “filha prodígio” e a amiga querida, de repente, precisa da atenção do namorado da colega para se sentir menos gorda.

Tentar entender não ameniza a mágoa, mas ajuda. Pensar que, motivada pelo instinto de sobrevivência, a pessoa cria uma justificativa totalmente razoável – na cabeça dela – para fazer o que fez facilita o processo de digestão. Ela não agiu assim porque é do mal; ela fez porque precisava fazer, precisava se sentir menos desconfortável em sua própria (e não raro imaginária) inferioridade.

O inseguro, ao mesmo tempo em que se percebe defasado em habilidades que julga importantes, quando as reconhece no outro, passa a identificá-lo como ameaça. E então reage. Transpira desdém sobre tudo aquilo que, no fundo, gostaria de possuir ou, na outra ponta, passa a injetar em si próprio, pelo menos no discurso, os tão sonhados adjetivos.

O pior tipo de insegurança, no entanto, não é a que vem do outro, é a nossa. Porque o outro, cedo ou tarde, será reconhecido como o coitado que falhou em disfarçar sua própria mediocridade. Ou então, melhor ainda, vira o cara que nos deixou mais fortes e seguros! Agora, quando a insegurança vem da gente, nos impulsionando não a reagir, mas a permanecer imóveis, aí temos um problema. Fracos, indignos, nem de longe bons o bastante: essa é a insegurança que todos os outros inseguros, agora vitoriosos, conseguiram nos fazer ver como real. E aí?

Aí você entra em campo mesmo assim, olha o adversário nos olhos, acena para a torcida e lembra que é, que sempre foi, maior que isso tudo.

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É preciso paixão

Como escreveu Vinicius de Moraes, “quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá para quem se deu. Para quem amou, para quem chorou, para quem sofreu.” Sim, é preciso paixão. Mas dá um medo, né?

Assusta porque, apaixonado, você perde a razão. Aposta em resultados improváveis, defende certezas incertas, troca a lógica pela emoção. Sofre, se entrega, ganha uma insegurança que nunca foi sua. Fica um pouco ridículo. Por outro lado, com paixão, você torce, vibra, sente mais. Os apaixonados têm um brilho nos olhos que nos inspira! É como se aquela paixão lhes bastasse e, por isso, parecem mais felizes, serenos.

Não sei se sou mais ou sei mais do que Vinicius, mas, ano passado, fui ridiculamente apaixonada. Sim, tive meu coração partido. Mas a verdade é que faria tudo de novo. Aliás, eu farei tudo de novo. Se, como diria outro poeta, “todas as cartas de amor são ridículas”, a minha já está sendo escrita há algumas rodadas. Bora perder a razão – e o medo de zicar o time – e começar a acreditar que neste ano vai?

Quem?

Vinicius de Moraes morreu em julho de 1980. Mais de trinta anos depois, este carioca, botafoguense ainda me inspira. Para quem não sabe, foi ele quem disse que “a gente não faz amigos. Reconhece-os.” Ah, e o autor de “todas as cartas de amor são ridículas (mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas)” foi o português Fernando Pessoa (1888-1935).

Minha queda por palmeirenses

Por muito tempo achei que fosse culpa do nariz. Aquele narigão que só homem de dicionário tem. Mas agora começo a pensar que é o conjunto mesmo. Cabelo de quem vai ao barbeiro e não ao cabeleireiro, guarda-roupa que segue uma palheta básica de cores, jeitão de quem se dá bem com todo mundo, até porque não é mala – nem no sentido pedante, nem no puxa-saco.

É o cara que, apesar de tradicionalista, tem jogo de cintura e bom senso para ceder na hora que é preciso ceder (ou que não é, mas o jogo vai começar e, caramba, a gente discute isso depois).

Ele ainda é amigo dos caras do colégio, do prédio, da faculdade. Sai com eles toda semana e estranha um pouco quando um leva o cunhado, “cara legal, mas nada a ver com a turma”. Gosta de passar o domingo com o avô e, apesar de disfarçar, morre de ciúmes se é o prato preferido da irmã – e não o dele – a estrela do almoço em família.

Destrambelhado, um pouco ranzinza, mas sempre charmoso, o palmeirense debate, não discute; argumenta, não constrange; se relaciona, não marca território. Se há mulheres que curtem homem que transforma troféus em chicotes para humilhar “destituídos”, e as que se encantam pelo malandro ingênuo, há as que, como eu, não resistem a um bello… “porquinho”.

Por que ela foi embora

(uma parada no futebol para publicar um texto que há tempos devo a alguns queridos amigos)

Ela não é a mulher perfeita só porque transforma parte dela nos homens com os quais se relaciona, passando a gostar do esporte que ele gosta e a pedir os ovos preparados do modo como ele aprecia, mas porque o coloca no lugar que todos, no fundo, gostaríamos de ocupar na vida de alguém: o centro. Com ela ao lado, esse cara, sem graça no meio da multidão, se sente especial. Ela adora as histórias dele e chora de rir com suas piadas. Vê os defeitos do moço como “charme” e sua falta de trejeitos sociais como “autenticidade” – ela até o acha bonito! E ele, coitado, quase acredita que realmente merece tê-la ao seu lado.

Assim, cego pela ilusão de que a mulher dos sonhos pode ser real, ele mergulha na relação com a mesma precipitação de uma criança frente um sorvete derretendo. Substitui o clichê do macho alfa pelo do apaixonado babão e inicia o processo de aprisionamento da amada com regalias e submissão sufocantes. Se ela tiver tudo, não irá embora, certo? Errado. Ao contrário dos homens, as mulheres sabem dizer adeus.

Mas exatamente como a traída que finge não saber das escapulidas do marido, o homem apaixonado e feliz prefere manter-se cego às inquietações da amada. Afinal, validá-las seria reconhecer que, talvez, ele não seja o homem da vida da mulher da sua vida, não é mesmo?

Crente na ilusão de que as mulheres se realizam no casamento, o pobre ajoelha-se, jura amor eterno e dá entrada no apartamento. Acha que assim ela fica. E fica mesmo, por um tempo. Porque mesmo um conto de fadas mentiroso ainda é melhor do que a solidão. “E ele me trata tão bem…” pondera ao som do ronco irritante do amante que virou colega.

Só que no fundo eles sabem – sim, os dois – que o dia do “até que a morte os separe” vai chegar e que, quando isso acontecer, quando a ficha cair, ela vai correr, fugir como uma louca para bem longe daquela prisão que ela mesma ajudou a construir, com seu medo diário de mostrar-se imperfeita.

E ele ficará lá, chorando no bar com os amigos, sem entender o que fez de errado, pensando na toalha molhada na cama, no futebol de terça, na sogra, naquele dia naquela festa… “terá sido isso?” Enquanto ela, sozinha, sem casa e ideia do que fazer a seguir, respira, aliviada, o ar da liberdade. “Ele merece alguém que o ame de verdade. Um dia seremos amigos”, reflete, com frieza, para aliviar o protocolar sentimento de culpa.

Se o príncipe abandonado compreendesse que, mergulhado na fantasia reconfortante de que aquele amor seria eterno, ele nunca se deu ao trabalho de observá-la mais de perto, perceberia que a “mulher da sua vida”, na verdade, jamais se mostrou inteira, completa, com todas as suas complexidades e defeitos. Quem sabe ao fazer isso, ao se dar conta de que nunca realmente a teve, ele, por fim, entenda por que ela foi embora.

Quem são essas mulheres?

Muito comum ouvir de uma mulher (bem) casada que o maridão “é ótimo” porque “ajuda na cozinha” e “é um pai super presente”. Considerando que a casa e os filhos são dos dois (não importa quem comprou ou carregou na barriga), ele não “ajuda” coisa nenhuma, apenas faz a parte dele! A não ser em casos em que há um acordo no qual a mulher cuida da casa e o homem sai para trabalhar, pilotar o fogão há tempos deixou de ser função feminina.

(Desta vez) não vou me indignar com os homens machistas. Vou questionar as mães que os criaram e as mulheres que os aceitam. Quem são vocês que perpetuam, com gosto!, a ideologia de que “esposa é profissão”?
Se os homens conseguem ser companheiros tão incríveis quanto são profissionais, as mulheres também são capazes de conciliar as duas coisas. E sem a necessidade de anular sonhos e talentos em nome de uma escolha que há décadas não precisa(ria) mais ser feita.

Não achei o sobrenome

Camile, esposa do ex-jogador Roger, escreveu uma tese em uma pós-graduação em Novo Hamburgo (RS), com o tema: “esposa de atleta profissional de futebol é profissão.” Formada em administração de empresas e agora pós-graduada em Psicologia do Esporte, ela gostaria de fazer parte da comissão do marido, que pretende ser técnico. Ou seja, aparentemente, Camile quer mudar de emprego.

A ciência explica

Ah, a paixão! Incrível como ela interfere em nossa capacidade de raciocínio. O que é errado, “absurdo”, ganha ares de permitido, justificado por esse sentimento tão forte e “incontrolável”.

A ciência explica que, quando estamos apaixonados, nosso nível de serotonina diminui. Sabe o que faz a serotonina? Ela nos ajuda a lidar com situações estressantes. Ou seja, sem ela, ficamos mais tensos e ansiosos. Além disso, o sentimento aumenta nossos níveis de dopamina, substância ligada a euforia e ao prazer. Entendeu agora por que perdemos um pouco da razão quando nos apaixonamos? Exatamente por isso eu não julgo quem usa a pele para fazer declarações de amor, abandona amigos de anos por um caso de três dias ou se desespera, certo de que o mundo vai acabar, quando se vê longe do seu objeto de desejo. Eu certamente pensaria melhor antes de fazer qualquer uma dessas coisas, mas não julgo quem se entrega às loucuras da paixão. Afinal, é tudo culpa da serotonina, da dopamina…

Paixão estampada na…

Esta semana, a modelo corintiana Jaqueline Khury, ex-BBB (Globo) e ex-Legendários (Record), postou em seu Twitter uma foto mostrando sua nova tatuagem: um símbolo do Corinthians no bumbum (região também conhecida como bunda, busanfa ou, para ser mais elegante: nádegas). Pois como entender tal atitude desconhecendo os efeitos da paixão no cérebro, não é minha gente? Tudo bem, vou confessar, já tive ideia parecida. Mas minha loucura tomaria outra forma – e não seria na bun… digo, nádega. Por sorte, a dopamina logo voltou aos níveis normais!

Debate ou blá-blá-blá?

Não tem jeito: se há um grupo de homens reunido, o assunto futebol
inevitavelmente vira pauta da conversa. Aliás, se o ambiente for
favorável (pense em um bar), bastam dois representantes do sexo
masculino para temas como a validade do Mundial de Clubes conquistado
pelo Corinthians em 2000 ou a qualidade do time de Dunga virarem debates
fervorosos.
Para quem está no bate-papo, o assunto parece a grande discussão do
momento, com resoluções capazes de mudar o mundo. Mas, para os que
apenas observam, em especial se a pessoa não é lá muito fã do esporte
(pense em grande parte das mulheres), tais falas soam como repetidos
blá-blá-blás em entonações variadas. Para este mero espectador, que
inevitavelmente enfrentará perguntas como “lembra disso?” ou “não
concorda comigo?” e para as quais não tem ideia da resposta, minha dica
é: saia de fininho. Ou então aprenda quem, afinal, é esse tal de André.

Mulheres e futebol
Se você de fato deseja a companhia de uma mulher (deseja mais do que
provar ao amigo que o Neymar deveria ter ido à Copa), mas a conversa da
galera debandou para o futebol, procure:

1- pelo menos situar a moça. Por exemplo, não diga só “Mourinho”, mas “Mourinho, técnico do Real Madrid, onde joga o C. Ronaldo”.

2- jamais perguntar se ela lembra de um lance (a gente não lembra!).

3- mudar de assunto.