“O Brasil ganhou ontem?”

“É… você me perdeu”, ela pensou, no instante em que, após  contar empolgada algo que descobrira em suas pesquisas, ele simplesmente virou a cabeça e continuou a aula. Referência em sua área, com plena consciência de seu extraordinário “capital cultural” e dispondo de 12 olhares ávidos por mais razões para admirá-lo, ele, mais uma vez, optou por alimentar sua própria vaidade a fomentar a vontade da aluna em sentir-se parte deste incrível mundo do saber.

A disciplina continua sendo hipnotizante, os conhecimentos ali adquiridos, cada vez mais interessantes – verdadeiras ferramentas desbravadoras de um novo universo – e estar naquela sala, ouvindo o mestre, ainda é um prazer quase infantil. A diferença é que, em vez de paixão, hoje o que a motiva a assistir ao “espetáculo” é simples apego a objetivos maiores e a esperança de conquistá-los. Algo que, sob o talento humilde e mágico de estrelas que atuam por sua arte (e para os que a constituem), seria daquelas experiências que queremos dividir até com o caixa da padaria, quando comandado por uma vaidade desmedida, acaba transformando-se em… um evento legal de algumas horas.

“O Brasil ganhou ontem?”

Perguntou a aluna ao colega, desviando o foco de suas bochechas constrangidas. Para uma mulher que “até que” gosta de futebol, ela não sabia sequer que se tratava de uma final. Não queria se juntar ao grupo dos que, em uma Copa, vibram pelos adversários, transformam derrotas antes doloridas em piadas na internet ou bradam orgulhosos que “torcer mesmo”, só pelo “meu time”. Mas, para sua tristeza, o que se entende hoje por Seleção Brasileira está mais próximo de um combinado de interesses pessoais e políticos do que de fato um orgulho nacional. Nossos craques, mimados por títulos, apelidos magnânimos e espólios de reis, jogam para alimentar suas vaidades (materiais, inclusive), e  não mais motivados por aquela paixão inocente de quando eram meninos e sonhavam um dia vestir a camisa canarinho. Estão perdendo seus admiradores, esses “gênios” de hoje em dia… Ganhar da Argentina e levantar a taça do Superclássico das Américas é legal? Sim, é um evento legal. E só.

De qualquer forma…

(e, sim, eu sei que é um anúncio de uma marca e blá, blá, blá…)
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Lembranças da Copa

Diremos que a vida segue…

Nós diremos que a vida continua. Que foi só um jogo e que nada vai mudar por causa desse resultado. Nós nomearemos “culpados” e, sobre eles, descarregaremos toda a nossa raiva e frustração. Nós pensaremos “como somos idiotas” por torcer tanto para quem, à vezes, parece nem lembrar que existimos. Nós transformaremos a paixão por futebol em “patriotismo burro”, só para amenizar um pouco a sensação de amantes que, ingênuos, se entregam só para sair com um coração partido. Nós faremos piadas! Muitas piadas para, com graça, esquecer um pouco da desgraça e seguir em frente. Nós retomaremos o amor pelo “time do coração” e diremos que “só ele importa”. Nós celebraremos a derrota argentina e o choro de Maradona como se a Holanda jamais tivesse feito aqueles gols. É, nós diremos que a vida continua. Ela continua apesar da raiva, da mágoa, das lágrimas… da derrota. Nós diremos que ela continua.

E quem vai nos consolar?
Nesta briga entre o Dunga e a imprensa quem saiu perdendo foi o torcedor. O torcedor que não conseguiu jamais comemorar uma vitória brasileira sem antes ser “alertado” sobre o próximo jogo e sobre as dezenas de “pontos falhos” do time escolhido pelo técnico. O torcedor que não ouvia os jogadores nem pode ter seus gritos de apoio ecoados para os atletas lá na África. O torcedor que até agora não sabe direito o que aconteceu. Com o Dunga, com a imprensa, com aquele segundo tempo…

Coluna publicada no jornal MAIS em 04/07/2010